“Viajo para fotografar e fotografo para viajar”

Olhar para as fotografias de Teresa Freitas é entrar num sonho: com tons pastel e imaginários encantados, a fotógrafa portuguesa está a percorrer um caminho pioneiro. Em entrevista, Teresa Freitas fala da sua relação com a cor, os destinos favoritos e do projeto “À Procura do Allure”, uma parceria com a galeria YellowKorner e a Peugeot, que a levou a Marrocos e pode valer-lhe, a si, uma escapadinha ao volante de um Peugeot.

Pathway

A cor ocupa um lugar central no seu trabalho. De onde vem esta ligação?

Vem desde criança, dos filmes de animação e dos livros ilustrados. Não foi uma aproximação planeada, mas sempre procurei cor na arte que consumia. Além disso, tenho uma relação próxima com a pintura: na minha família há muitos pintores e quando fui para a Faculdade de Belas Artes entrei em Pintura. O que gosto na pintura é a forma como cada artista expressa e trata a cor, especialmente Van Gogh, que é a minha primeira grande influência. 

Mas não são cores garridas ou color block, são pastéis, uma paleta mais sonhadora. Porquê? 

Nunca gostei de cores muito saturadas, mas o acordar para esta estética deu-se com uma visita a São Francisco, em que a intuição me levou a editar as fotos da cidade retirando o contraste entre luz e sombra para ficarem mais harmoniosas. E como nunca tinha visto nada assim, motivou-me a fazer algo diferente. 

The passerby

Town whispers

Procura estas combinações ativamente quando fotografa ou só as faz na edição?

Já reconheço facilmente o que posso vir a fazer, mas não tenho olhos especiais (risos). São muitos anos a fotografar e tenho noção de até onde posso levar as cores, porque embora faça edição, não quero transformar verde em azul. Posso é tornar o verde mais azulado e isso faz toda a diferença.

Como descreveria a sua estética?

Diria que as minhas fotografias demonstram a forma como a cor nos pode distanciar da realidade. Se a fotografia já é uma segunda realidade, uma representação, a minha edição leva-a a um terceiro nível de distanciamento. Quero que quem vê questione o que está a ver, se é uma fotografia, uma pintura, uma ilustração… Mesmo que seja durante meio segundo, procuro causar essa estranheza imediata, mas ao mesmo tempo confortável. A cor pode tornar uma cena complexa, com muitas camadas, em algo mais fácil de digerir.

Walking hues

Que papel têm as viagens na sua fotografia?

Há muita espontaneidade naquilo que fotografo e estou aberta ao que me rodeia, e é quando viajo que posso andar pelas ruas à procura. Viajo muito para fotografar e fotografo muito para viajar. 

Em que sítio sentiu que cada canto era uma fotografia?

São Francisco é uma cidade muito inspiradora, mas são os sítios completamente diferentes que me trazem mais prazer. A China Town de São Francisco foi surpreendente, nunca tinha visto nada assim. Marrocos também é muito rico. Sempre tive uma adoração pelo Japão, por causa dos filmes de animação e pelos videojogos, mas acabei por ir primeiro à Coreia do Sul e, sem esperar, adorei. Adoro sítios que me trazem estranheza, é muito curiosa a minha reação, como trago coerência às imagens.

Ensemble

Fatima

Marrocos foi precisamente o sítio onde andou “À Procura de Allure” com a YellowKorner e a Peugeot. Como foi esta experiência? 

A fotografia é a forma como conto histórias e ali encontrei muitas histórias com cor. Estivemos em três sítios, Chefchaouen, a cidade azul, Marraquexe, a cidade rosa, e o Vale das Rosas, um oásis no meio do deserto onde crescem milhares de rosas, e consegui apanhar boas narrativas. O Allure para mim inclui então cor, primavera e flores e tive liberdade criativa total para o encontrar.   

Que dicas tem para quem quiser procurar o Allure à sua volta e fotografá-lo?

A coisa mais imediata é encontrar aquilo que nos traz alegria e estar muito atento aos detalhes. Às vezes as pessoas esquecem-se de encontrar diferentes perspetivas do que já conhecem, seja ao olhar para trás quando estão a andar ou a baixar-se ou aproximar-se para ter um ângulo diferente. Depois, é bom focar num objetivo, porque ter a tela em branco pode ser muito difícil.
A fotografia é a forma como conto histórias e em Marraquexe encontrei muitas histórias com cor.